Admito que não ando muito impessoal em relação à Emily Blunt: se ela está envolvida no projeto já tendo a criar interesse e ir com expectativa positiva. Mas não é uma relação sem decepções: achei-a fraca no O Caçador e a Rainha de Gelo, por exemplo, só que, nem aí, ela estava ruim, porém poderia ser melhor. E outra coisa que eu gosto é um bom mistério. Filmes de investigação, onde as peças vão surgindo aos poucos, num clima de urgência, suspense e drama, tende a ser uma mistura que ressoa comigo. A Garota no Trem é uma história de thriller de mistério, com a Emily Blunt no papel principal – logo eu:

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Mas será que mereceu tanta animação?

Atuações: A Emily Blunt, no papel da complexa Rachel, mói mais do que o nosso fornecedor de carne. Ela apresenta um enorme leque de emoções e sofrimentos que compõem sua personagem. A Rachel é uma moça não lá muito equilibrada emocionalmente, que faz o caminho do trem duas vezes ao dia, indo para NY e voltando. No caminho, devido à solidão e cicatrizes emocionais, ela passa a criar histórias e conectar-se com algumas das pessoas que observa quando o trem passa. Inicialmente é isso, então mais e mais camadas vão surgindo, e a Emily evidencia todas elas com categoria de atriz classe A, da mais ampla vulnerabilidade até momentos de força. Sabiamente ela está na maioria das cenas. E na maior parte daquelas em que não se faz presente, está a Haley Bennett, com a personagem Megan. A Megan é uma moça linda, com uma história de amores complicados e, atualmente, sente-se presa no casamento. A Haley é mais limitada do que a Emily, contudo não derrapa na interpretação: cumpre bem o seu papel, com até alguns momentos de destaque e brilho. A Rachel e a Megan são o esteio do filme, os demais são apoio e a qualidade aí varia mais: a Rebecca Fergusson (Anna) é pouco memorável, assim como seu quem faz seu marido: o Justin Theroux (Tom). O Edgar Ramírez (Dr. Kamal), um ator que eu gosto, não faz muito com seu tempo na tela. O Luke Evans (Scott), que faz o marido da Megan, e a Allison Janney (Detetive Riley), são os melhores entre os coadjuvantes, sendo eficientes e com boa presença. Na soma, apesar de algum desnível, um elenco forte e atuações destacadas.

Roteiro: O filme é baseado no livro da Paula Hawkings, que eu não li. Assim, não traço comparações, mas o filme, propositalmente, é uma colcha de retalhos. O incidente que dá início ao mistério é parcialmente testemunhado pela Rachel, só que ela não encontra-se no mais sólido dos níveis de atenção. Assim, ela vai, ao poucos, recordando-se do ocorrido, adicionando partes ao quebra-cabeça. Isso, claro, serve para confundir a audiência (e também a própria Rachel), tanto por não sabermos muito e vermos quase tudo pela perspectiva da Rachel, que, primeiro, não é das mais neutras, e, segundo, não muito confiável. Ademais, o filme também acompanha a Megan e o que vamos aprendendo igualmente serve para lançar pistas e levar nossas suposições e perspectivas em caminhos variados. Porém, apesar de essa colagem de cenas ter uma função, as constantes passagens do presente para o passado são feitas de maneira pouco suave, cortadas e e, por vezes, confusas, e acabam, no conjunto, fazendo um desserviço ao enredo – nem perto da não-linearidade gloriosa do filme Amnésia. O foco dado para certas situações e personagens igualmente tem por função engrossar a cortina de fumaça, mas aí atrapalham um tanto o passo do filme, que, por vezes, enrola-se e cai no melodrama.

O mistério: Não entrarei em detalhes, claro. A situação não é incomum e, como esperado, existem N maneiras de dar uma resposta ao ocorrido: é isso que deixa-nos adivinhando. Porém, apesar do segundo e terceiro atos do filme envolveram o mistério, o foco da trama fica, principalmente, na Rachel e, em menor escala, na Megan. E isso num nível pessoal: é a descoberta da vida delas, do que elas passaram e como lidaram e lidam com isso. É mais um drama pessoal com um mistério como pano de fundo e catalisador.

No geral: A Garota no Trem tem pontos fortes, principalmente na atuação, só que a natureza recortada do roteiro, o passo atrapalhado, e um mistério quase fútil, tornam o filme um tanto chato. Ainda assim, notadamente pela atuação da Emily, há o que ser apreciado e a história, apesar dos pesares, tem seus méritos. Ganha, portanto, uma recomendação parcial e com restrições.

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