Olá, hamburgueiros!

 

Terror/horror não é, nem de perto, meu gênero favorito – eu detesto os sustos (jump scares) malandros, aqueles em que a música estoura e os clichês do gênero abundam (pessoa logo atrás da outra, algo passando rápido na frente da câmera, algo caindo/batendo/quebrando, etc). O terror é, possivelmente, o gênero mais engessado de todos (mas pode ser a comédia romântica) – raras são as inovações, com os estúdios só trabalhando com variações da mesma coisa, usualmente com sustos cretinos e roteiros terríveis (este sendo o verdadeiro horror). Porém, mesmo dentro de um dos gêneros mais entupidos de clichês, eventualmente algo sai da norma e destaca-se (como O Nevoeiro (2007), Deixa Ela Entrar (2008), Arraste-me para o Inferno (2009), O Babadook (2014), Corrente do Mal (2014), A Bruxa (2015) – são, da última década, os mais notáveis, sem procurar demais), e a promessa em torno do Corra! é que ele segue nesta linha. Será?

 

O roteiro do Jordan Peele, que também dirige o filme, é, realmente, diferenciado. Ele carrega uma dose de humor não muito comum no gênero, provavelmente pela própria veia de comédia do Jordan Peele. Além disso, o roteiro, sem pesar a mão, consegue demonstrar bons comentários sociais na relação entre brancos e negros. Disto vem boa parte da tensão do primeiro ato do filme. E, até aqui, mal seria possível afirmar que o Corra! não é um romance/drama (até o título poderia ser aplicado, com outro significado) – claro, isso desconsiderando a ótima cena inicial. No entanto, o clima de estranheza permeia os mais variados momentos – e este é o cerne e principal ponto positivo do filme: valer-se mais do desconforto, do sub-reptício, do passivo-agressivo, do mistério e do esquisito para criar seu clima de terror crescente, ao invés de música alta e sustos bobos (porém, há pelo menos um momento assim, que, por sinal, poderia não ter ocorrido e nada mudaria). No todo, um roteiro ótimo, mesmo que o passo, em certos momentos, seja um tanto arrastado demais – no entanto, não me senti realmente incomodado pela enrolação em qualquer momento, mas poderia, sim, ser mais ágil.

 

As atuações são boas. Daniel Kaluuya (Chris) está excelente em seu papel, tanto ao demonstrar (ou segurar) emoções, como, e isso talvez seja o mais relevante quando fala-se de filmes de terror – sem tomar decisões estúpidas que o colocam em perigo constante. Seu personagem é um rapaz inteligente, que sabe como se portar e falar com os outros, e que percebe quando algo parece fora do eixo. É, sim, possível fazer terror sem pessoas espalhando-se ou indo atrás da fonte do barulho. O elenco de apoio funciona muito bem, principalmente a Allison Williams (Rose), como a namorada do Chris e que o leva para conhecer a família dela; e, ainda mais, o LilRel Howery (Rod), o amigo do Chris que trabalha na TSA (agência de segurança aérea dos EUA), e que é responsável pela maior parte do inesperado humor do filme e, apesar disso, não torna-se uma caricatura de pessoa, só estando em tela para falar piadas; ao contrário, ele realmente tenta ajudar (e ainda cuida do cachorro).

 

A parte do terror em si, que não entrarei em detalhes, claro, é a que pode ser a mais discutível. Ela mistura elementos que podem não agradar a todos, principalmente pela credibilidade. Como eu não espero um documentário científico dos meus filmes de terror (e ficcionais, no geral), aceitei bem como foi o desenvolvimento e aplicação do ocorrido. Mas entenderia perfeitamente alguém que me diga que “aquilo ali foi demais para mim”. De qualquer forma, o tratamento é madura, sem explorar demasiadamente para causar impacto.

 

No geral, o Corra! efetivamente entrega uma experiência diferenciada: um roteiro inteligente, com um bom encaminhamento dos elementos; e atuações sólidas. Corra! não é um filme sensacional, nem marcará sua vida (“Ah, crianças, eu lembro bem quando vi esse filme. Era 2017 – quarenta anos atrás!”), mas existe tanto lixo genérico e clichê nesse gênero que é preciso recomendar aqueles que conseguem sair da trilha batida. E ajuda ele ser, de quebra, um bom filme.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>