Olá, hamburgueiros! Blade Runner, o Caçador de Androides, quando estreou em 1982, teve duas principais reações: a) ignorado e/ou b) criticado severamente. Some a isso uma produção problemática, com o Ridley Scott sendo demitido pouco antes da filmagem principal iniciar, ou o orçamento sendo estourando e atrasos ocorrendo, colocando pressão adicional no resultado do filme, o qual, na bilheteria, não veio, com o filme arrecadando menos do que o que foi gasto nele. Com tudo isso, não seria de esperar uma sequência ocorrendo – não uma usual, dentro daquele período de 1 a 5 anos. Com o Blade Runner, seu status de cult veio com o tempo, com sua apreciação e valor cinematográfico marinando no tempo. Assim, faz sentido que a sequência tenha demorado 35 anos para sair (ainda mais do que os 30 anos passados na cronologia do próprio filme). E será que todo esse tempo serviu bem ao novo filme?

 

As atuações são boas, e a escolha do Ryan Gosling (K) para basicamente ter a função que era do Harrison Ford (Rick Deckard) no filme original é bem feita, já que ambos tem os mesmos traços e atuam de forma similar, ainda que o Ford tenha claramente mais um jeito de ser da rua, mais malandro, e que funciona melhor para trazer empatia da audiência, enquanto o Gosling, até por ser um replicante – e, portanto, desenvolvido para ter um alcance menor de emoções, sai-se como um ser com conflitos internos, porém, de propósito, apresentado de uma maneira mais “robótica” (os replicantes não são robôs nem ciborgues, mas seres biológicos criados por engenharia). E, para falar a verdade, talvez também de propósito, muitas das atuações são mais contidas, sem muita emoção, possivelmente para empurrar a audiência naquele sentido de não conseguir diferenciar um replicante de um ser humano. Aí calha da única personagem que tem-se certeza que é 100% não humana, é também a que tem o melhor arco emocional – o programa Joi, interpretado pela Ana de Armas (sim, esse é o nome dela). A moça, que é um programa que interage com o K durante a maior parte do filme, sendo basicamente a namorada/esposa dele, tem, para mim, vários dos melhores momentos. Inesperado. O Harrison Ford cumpre sua função (e aparece bem menos do que eu esperava), enquanto o Jared Leto está OK, mas a verdade é que, após saber que o papel dele era para ser do David Bowie, nunca o Leto seria suficiente. No geral, um bom elenco, superior ao original, contudo sem um Rutger Hauer para realmente trazer uma atuação marcante e memorável.

 

O roteiro segue no mesmo ambiente: replicantes, após uma série de problemas, são banidos e a Corporação Tyler entra em falência; todavia, pouco mais de uma década depois, são permitidos novamente, já que a Corporação Wallace garante que os novos são totalmente obedientes. Sabemos que é mentira, mas precisando deles para continuar conquistando mundos (aparentemente de outros humanos) e expandindo o alcance da humanidade. Só que os modelos antigos ainda estão por aí, sem limite de vida (originalmente eles eram programados para viver 4 anos), e causando problemas, o que faz com que os blade runners (área especializada da polícia para caçar replicantes) continue na ativa. Essa é a base. O Blade Runner original atua muito mais na parte da investigação – de encontrar e retirar os 5 replicantes problemáticos. Apesar de ser muito falado do debate sobre o que é ser um ser vivo, o que é vida, humanidade, etc, o original não fica muito nessa parte, não. Tem o teste Voigt-Kampff, e o trecho final, culminando na frase final do Batty – Todos esse momentos serão perdidos no tempo… como lágrimas na chuva… Hora de morrer. No Blade Runner 2049, o foco é na investigação, sim, mas bastante do tempo recai muito mais sobre a dicotomia humano-replicantes, o que separa uns dos outros, o que é vida e alma, servidão; principalmente devido à busca central do filme.

 

 

Assim, o Blade Runner 2049 segue na trilha de uma filme mais “cabeça”, com longas cenas, muitas com pouco diálogo, servindo para estabelecer o ambiente, a situação e os sentimentos. Aí, de 1h57 do original, vai-se para 2h44 do novo. Ou seja, é um passo mais arrastado, mais introspectivo, e que, com isso, não vai agradar a todos. Eu não me importei com isso, o que me incomodou mesmo foi o trecho final. Óbvio que não entrarei no território dos spoilers, contudo o pagamento de toda a história, para mim, ficou abaixo do esperado.

 

Para dar mais corpo a história, foram feitos três curtas que explicam partes dela – coisas que são citadas ou inferidas durante o filme. Os três estão disponíveis no Youtube:

Black Out 2022

2036: Nexus Dawn

Nowhere to Run

 

A ambientação é sempre muito bem feita, uma festa para os olhos, com composições bem diferenciadas e marcantes. O Dennis Villenueve (A Chegada, Sicario: Terra de Ninguém, Os Suspeitos, etc), junto do Roger Deakins (cinematografia), já mostrou essa habilidade com frequência, então eu já espero isso, nem é surpresa, é o mínimo. Além disso, é agradável saber que a Sony ainda estará na ativa em 2049. Sony. Sony.

 

No fim, Blade Runner 2049 é um filme que me agradou durante sua maior parte. O andamento é mais lento do que eu prefiro, e o fim deixou-me um certo gosto amargo, porém, no geral, é um filme de boa qualidade – tanto na parte técnica quanto nas atuações e história. Sim, é um verdadeiro amassador de bunda com suas quase 3 horas, porém, a quem gosta do original e/ou de sci-fis mais cerebrais, eu recomendo.

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