Olá, hamburgueiros! É difícil apontar o Guillermo del Toro como um dos melhores diretores da atualidade – primeiro porque ele mais escreve roteiros do que dirige filmes, e dos que dirige, ele tem no currículo uma obra-prima como O Labirinto do Fauno, outros entre excelentes e ótimos – Espinha do Diabo, Hellboy, Blade II -, e fracos e decepcionantes – A Colina Escarlate e Círculo de Fogo. Agora, o que é inegável é que poucas pessoas tem a imaginação dele e o olho para criar obras visualmente fantásticas e lindas na tela. Com A Forma da Água, dado o impacto do filme – 92% de aprovação dos críticos, líder em indicações do Oscar 2018 com 13 nominações. Assim, será mesmo que o A Forma da Água é mais Labirinto do Fauno ou Colina Escarlate?

 

Bem, A Forma da Água é, como esperado, irretocável na parte visual. Todos os ambientes são explorados com cuidado, alternando composição e cores para passar à audiência sentimentos variados – indo do cinza e verde da instalação de pesquisa, às cores quentes e vibrantes da casa dos protagonistas e do cinema que fica abaixo deles. Porém mesmo dentro desses espaços maiores, as salas são diferenciadas com esmero, como a sala de controle e o banheiro da Elisa Esposito. Apesar dos elogios, o todo parece-me inferior a alguns trabalhos anteriores do Del Toro, como o Hellboy e o Labirinto do Fauno. Ainda assim, está bem acima da média.

 

Nas atuações não há ponto baixo. O elenco principal é relativamente pequeno, ficando-se em 6 personagens, mas, todos os 6 demonstram suas qualidades. A mais “fraca” é a Octavia Spencer (Zelda Fuller), basicamente porque sua personagem não exige muito esforço, sendo a menos interessante do grupo. O Richard Jenkins (Giles) e o Michael Stuhlbarg (Dr. Hoffstetler) servem de apoio, e ambos estão ótimos – o Jenkins é o mais dramático dos dois, e seu sofrimento e dúvidas são expostas de forma hábil. Torço para o Michael Shannon (Richard Strickland) não cair num rótulo de vilão, pois o cara é bom demais para ficar limitado a isto; no entanto, como negar que seu Richard é bastante intimidador, complexo, sendo bem mais do que um antagonista de uma nota só; o Shannon domina suas cenas como poucos e em qualquer momento em que está presente, ele é o ponto focal – isso, pessoas, é uma tremenda qualidade. O Doug Jones (Anfíbio) fica limitado pela fantasia e próteses, mas, sem ser um Andy Serkins, faz o suficiente para que seu enigmático e silencioso Anfíbio. Sobre silêncio, chegamos na personagem principal, a Sally Hawkins (Elisa Eposito), cuja mais notável (mas longe de ser a única) característica é ser muda. Não é fácil tomar uma decisão assim – é preciso muita confiança na atriz, que precisará conectar-se com o público e outros personagens de uma forma mais indireta, posto o diálogo ser a principal ferramenta de transmissão de ideias e emoções em filmes. A Hawkins, no entanto, cumpre com maestria seu papel, demonstrando muito – alegria, tristeza, solidão, paixão, medo, etc – com seu corpo e olhos.

 

 

O roteiro da A Forma da Água é, em si, um romance com fios de conto de fadas – isso é algo que o Del Toro gosta de lidar, constantemente brincando com a dualidade do mundo real e a fantasia. Algo assim pode seguir por linhas variadas, a maior parte delas sem ambição e que deslizam rápido para uma comédia romântica. Aqui não foi assim. O Del Toro, desde o princípio, opta pela dor e perda. Todos os personagens principais sentem-se incompletos, barrados de alcançar seu verdadeiro potencial, seja pela ação de terceiros (como o Anfíbio), pelo destino (a Elisa e seu mutismo), pelo sistema (o Richard e a rigidez de uma hierarquia nem sempre baseada em mérito), pelas escolhas (o Dr. Hoffstetler e sua disputa interna entre sua aliança política e seu coração de cientista), pelo relacionamento (a Zelda e seu casamento) e até mesmo sem saber em que ponto a vida foi-se para fora dos trilhos (o Giles). É uma situação altamente complexa e bastante profunda – um verdadeiro exame do espírito, recheado de perda, pesar e descobertas. Os personagens lidam com suas limitações de forma diferentes, o que torna o filme mais rico e relevante. Certamente é mais do que espera-se de um romance com elementos de fantasia, e é isso, claro, que levou o A Forma da Água a sobressair-se ante o público e crítica, de forma merecida.

 

O A Forma da Água nã0 é um filme usual em quase qualquer medida: é, sim, curioso, surpreendente, intricado e profundo. É atípico, mas lida com sentimentos que todos têm, tiveram ou terão. O Guillermo del Toro entrega mais um poderoso filme, pendendo seu currículo para o lado da excelência. A Forma da Água certamente merece ser visto, discutido e admirado.

 

E sim, para mim o filme é um prequel do Hellboy, mostrando a origem do Abe Sapiens. Tudo parte do Hellverse – não há dúvidas sobre isso.

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