Olá, hamburgueiros! Não é uma regra, porém ocorre que, com notável frequência, títulos esdrúxulos forneçam filmes ótimos, tais como: Mais Estranho que a Ficção, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), entre variados outros. Três Anúncios para um Crime é menos curioso que o título original do filme – Three Billboards Outside Ebbing, Missouri – mas ainda encaixa-se. Agora, fará o filme jus ao seu nome?

 

O Três Anúncios para um Crime, que se passa na cidade de Ebbing, onde uma mãe (Frances McDormand) paga para colocar 3 outdoors questionando o trabalho da polícia local acerca do caso envolvendo a morte da filha, começa rápido, sem enrolação, e prossegue assim na maior parte dos seus 115 minutos. Mérito do roteiro, que concorre aos Oscar de Melhor Roteiro Original, do Martin McDonagh, que também dirige o filme (e que também concorre na categoria Diretor – o filme acumula 7 indicações, incluindo Melhor Filme). No entanto, este mesmo roteiro, que consegue ser denso, pesado, depressivo, em conjunto a ter constantes inserções de humor, deixou-me confuso às vezes – em 90% do tempo ele parece “real”, onde tudo acontece nesta mundo que vivemos e conhecemos. Porém há momentos que não parecem fazer parte desta mesma realidade – como quando, numa briga de família, uma pessoa usa uma faca na garganta do outro, e tal situação é interrompida de forma brusca, humorística, e as pessoas que discutiam de forma tão assertiva, passam para um “ah, foi nada”. Um tipo de exagero e mudança de tom e direção usualmente reservado para as sitcoms. Fora isso, e mais constante, são os policiais, pois exceto o Willoughby (Woody Harrelson)  e um outro, eles agem de forma que beira o absurdo – eu incluiria que eles falam como se tivessem paralisia facial, mas talvez este seja o maneirismo da região.

 

É muito curioso e, creio, não é proposital. Portanto, é uma fraqueza inesperada (por mim) do roteiro e, por diversas vezes, quebrou minha imersão na história e meu limite da suspensão de descrença.

 

 

 

Agora, o que funciona o tempo todo são as atuações. A Frances McDormand, com sua Mildred, a personagem principal, está excelente, entregando uma personagem forte, teimosa e temerária, ao mesmo tempo que é inconsequente, provocadora e até maldosa; ou seja, uma pessoa de fato, complexa, multifacetada, e todos seus momentos são críveis. Apesar dos muitos elogios que vi por aí, o Woody Harrelson, no papel do Willoughby, não me impressionou – para mim o Harrelson é bastante competente, porém longe de causar impacto; é só o nível usual dele, que, felizmente, tende a ser alto. Já o Sam Rockwell, e seu Dixon, aí sim – o Rockwell, desde o excelente Lunar, mostra estar num padrão de excelência quase só dele, pois em todos os papéis ele é ótimo ou mais. Aqui não é exceção e num filme com poucos arcos de personagens que vão a algum lugar ou tem não tem um fim abrupto, o policial Dixon é o destaque.

 

Três Anúncios para um Crime é um filme que pode ser difícil de ser visto – não pela questão da violência, que é baixa, mas pela amargura e, principalmente, a raiva perene. Eu pensava nisso enquanto assistia, então eis que, numa cena, os personagens falam sobre algo similar. Não é um acidente. Ocorre que quase todas as pessoas que aparecem, têm raiva. Nem sempre da mesma coisa: uns da situação, alguns de outros, outros de si, alguns sem nem saber do quê. Mas assim o é. Nesse bule fervente, as emoções afloram, e a tensão surge, pois ficamos na expectativa de algo ruim – com tanto nervosismo, rancor e ira, é um passo pequeno para problemas. É compreensível que seja assim, considerando o foco do filme/roteiro, contudo, admito que era sufocante, às vezes.

 

De qualquer maneira, apesar de suas estranhezas e clima de aflição, o Três Anúncios para um Crime é efetivamente um bom filme, fazendo jus à qualidade da família de títulos curiosos. Recomendo-o.

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